Depois de ouvir muitos conselhos e explicações sobre a diferença entre realismo e idealismo (na realidade, explicações sempre idealizadas), resolvi anotar algumas dessas jóias :

 

Eu gostaria de ser mais realista. Só não tenho ainda uma ideia de quando vou começar.

Meu filho, seja mais realista: você não tem ideia de como isso pode ser bom.

A ideia é sangue puro; a realidade é pangaré.

O ideal é que o valor do Real seja equivalente ao valor do dólar.

Com o tempo a realidade nos obriga a mudar  de ideia sobre a  realidade.

O ideal é que você seja sempre mais realista.

O combate ao idealismo tem sido um dos grandes (e naturalmente inatingíveis) ideais do nosso tempo.

A vitória da realidade sobre os ideais acontece como um terremoto, quase sempre quando você não tem a mais vaga ideia sobre o que está acontecendo.

Ainda não conseguimos idealizar um modo de enxergar a realidade como ela é em si mesma.

O problema de procurar a mulher ideal é se deparar quase sempre com uma mulher em busca do homem ideal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando criança, aqui em São Paulo, o meu passatempo predileto era ler gibis do Mickey e do Pato Donald.  Quando acumulava muitos, ia ao sebo de gibis na rua Martim Francisco,  quase na esquina com a rua das Palmeiras, e trocava  dois gibis velhos por um outro usado. Almanaques valiam três. Aquele pequeno escambo de revistas em quadrinhos era um negócio de sucesso.

Um dia achei uma história muito interessante. O Tio Patinhas, Donald e os três sobrinhos ficaram presos em uma ilha isolada e deserta.  Não havia comida nem água. O Tio Patinhas e o Pato Donald começaram então a procurar água e comida.

O Tio Patinhas achava ouro, diamantes, prata … mas não achava água nem comida. O Pato Donald achou um coco. Mas o coco não dava pra matar a sede nem alimentar  todo mundo. Se dividisse com o tio Patinhas, todos morreriam de fome e de sede.

O Tio Patinhas então ofereceu ouro e diamantes ao Pato Donald em troca do coco. Mas o Pato Donald pensou bem, e não viu vantagem nenhuma em ter ouro e diamantes e morrer de fome e sede.  Não se come ouro ou diamante. Também ouro não é varinha mágica que traz comida, abrigo e roupa do nada. Se houvesse pelo menos um agricultor ali, se houvessem operários trabalhando, se houvesse comércio pra comprar coisas com ouro e diamante, aí sim, ele aceitaria a oferta do velho Tio Patinhas.

A história, como sempre,  acabou bem. Eles escaparam da ilha e se salvaram. Mas deixou em mim a certeza de que dinheiro, sem trabalho, é uma ficção sem trama. Todo o dinheiro do mundo, se isolado em uma ilha, não vale nada. Precisa de trabalho.

E é engraçado como nós, trabalhadores da cidade e do campo, pensamos no dinheiro como algo distante e difícil de conquistar, quando na verdade somos nós que fazemos o dinheiro valer alguma coisa além dos valores impressos nas notas. Aqueles valores são o resultado da nossa labuta diária.

 

 

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A roupa nova do Rei

Tem também aquela lenda  do Rei (ou imperador)  vaidoso, inspirada em um conto medieval, que gostava de trocar de roupa várias vezes por dia. Ele tinha uma roupa pro café da manhã, outra pro almoço, outra pro chá da tarde e outra pra hora de jantar.

Naquele tempo dois tecelões se apresentaram no palácio como grandes conhecedores na arte da tecelagem, e disseram que faziam roupas tão lindas que quem não visse a beleza das suas roupas só poderia ser muito, mas muito estúpido mesmo.

Os tecelões então pediram fios de ouro puro e começaram a fingir que trabalhavam na roca. Como já estavam demorando muito, o Rei pediu ao primeiro ministro que fosse ver como ia indo o trabalho. Chegando lá, os tecelões paravam de simular que estavam tecendo,erguiam as mãos e fingiam que seguravam o tecido. O ministro não via nada, mas se lembrou de que se não visse nada seria considerado estúpido, muito estúpido mesmo. Voltou ao Rei e disse que os tecelões estavam fazendo um excelente trabalho e o tecido era lindíssimo.

Assim continuou o Rei a enviar pessoas para conferir o trabalho dos tecelões. Todos voltavam admirados com o resultado, mesmo sem enxergar a roupa.  Ora, mas eles não eram estúpidos, e só uma pessoa muito estúpida não enxergaria a beleza daquela obra de arte. Então diziam ao Rei que os tecelões trabalhavam muito bem e com muita arte. O Rei estava muito contente e sempre enviava mais e mais fios de ouro a pedido dos tecelões.

Até que um dia a roupa ficou pronta. O Rei olhou bem, mas não viu a roupa. Esfregou os olhos, mas continuava não enxergando a roupa. Como não queria ser considerado um Rei muito estúpido, perguntou aos ministros o que achavam. Os ministros, como também não eram estúpidos, acharam que a roupa estava à altura da realeza, da sabedoria e da coragem do Rei. Os tecelões vestiram o Rei. “Tão leve que eu nem sinto ela sobre a minha pele!”, disse ele, emocionado. O Rei então pagou regiamente aos dois tecelões, e os despediu com todas as honras.

Os tecelões malandros, por sua vez, partiram rapidamente levando todo o ouro em grandes sacos.

O Rei então saiu pelas ruas com a sua comitiva, para exibir a sua nova roupa ao povo. Todos levantavam bandeiras e gritavam: “Vida longa ao nosso Rei!”.

Com medo de parecer estúpido, todo mundo se esforçava para acreditar que a roupa do Rei era muito elegante enquanto ele desfilava garbosamente pelas ruas.

Até que um garoto não se sabe de onde, que nada sabia de estupidez nem de bom gosto, denunciou a nudez do Rei apontando para ele e dizendo: “Vejam só que engraçado, o Rei está nu!”.  O povo abriu os olhos como quem acorda de um transe, e de repente caiu na gargalhada. O Rei, é claro,  ficou muito envergonhado.

E se a história não foi bem assim, bem que poderia tecido.