Eu não conheço outras religiões além da minha pra falar de nenhuma delas. Também não sou teólogo, e acho que não tenho vocação. O que sei é que fui criado aprendendo as lições que Jesus Cristo ensinava a todo o povo, sem distinção de classe ou de grau de instrução.

É claro que agente vai pra escola e aprende um tanto de biologia, então coloca em dúvida os ensinamentos da Bíblia Sagrada. Mas não acho que Jesus veio ao mundo para explicar a evolução das espécies. Ele falava como se devia falar naquele tempo. Não veio para esclarecer todos os mistérios do Universo, e nem poderia. Só Deus poderia entender o Universo.

Apesar disso, ele deixou bons ensinamentos. Por exemplo, o seu combate à hipocrisia, tão válido naquele tempo como em nossos dias. Outro ensinamento importante foi pregar o desapego das coisas materiais, não se tornar escravos delas.  As coisas devem nos servir, e não se assenhorear da nossa alma. Também, antes de julgar, precisamos nos examinar cuidadosamente, porque às vezes criticamos nos outros aquilo que ainda não superamos em nós mesmos.

Quando perco a fé, o Cristianismo me permite um recurso para além de interessante: nas horas de aperto posso pedir perdão e orar por mais fé. E a fé é assim mesmo, tem dias em que ela está bem fraquinha; tem dias em que ela está bem firme e luminosa.

Descuidar da vida material, nunca. Mas trabalhar com fé é muito mais produtivo.

 

 

 

 

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Quando se fala sobre o custo do presidiário para a população, imediatamente nos vem à cabeça coisas como roupa e comida.  Longe de ser apenas isso. Um preso mobiliza todo um sistema judiciário que custa muito dinheiro. Por causa dele mobiliza-se a polícia, o Ministério Público, a Defensoria Pública, Juízes, Oficiais de Justiça e Escreventes. São cargos muito bem remunerados. Os processos demandam análise especializada, espaço, tempo e muita verba pública. Mesmo depois de condenado e preso, o criminoso ainda deve ser acompanhado pelo Juízo das Execuções Criminais, Psicólogos, Psiquiatras e todas as decisões a respeito da sua progressão são submetidas a outros especialistas para receber o seu aval.

O custo mais gritante, entretanto, é o risco de vida e a humilhação a que o cidadão comum está submetido. Já não bastam os problemas ordinários da vida, como trabalhar e conseguir uma renda suficiente para as necessidades cotidianas? Já não basta a dificuldade para cuidar da família e educar os filhos decentemente? Já não bastam as dificuldades de se encontrar um emprego?

— Não!  diz a realidade cotidiana. Há um criminoso em cada esquina estreita.  Uma parada no sinal de trânsito é perigosa. Uma viagem entre a casa e o trabalho pode virar um pesadelo.   Um telefonema de um desconhecido pode ser mais um golpe das quadrilhas que se multiplicam.

Falo do drama mais pungente de cada um de nós individualmente, e até omito nesse momento o assunto da corrupção política, tão em voga.  Isso porque não sou especialista em assuntos políticos, nem sociólogo, então só posso falar do que sei e vejo no meu dia a dia. O certo é que não é mais possível viver uma vida minimamente saudável em um país onde a criminalidade se espalha, se organiza e ameaça a nossa liberdade de ir e vir.  Ir e vir é um direito tão fundamental que tenho de considerar a criminalidade, como vem acontecendo no Brasil, como uma ameaça à própria Democracia e ao Estado de Direito.

Se fosse apenas isso, já seria muito. É ainda bem pior do que isso. Você começa a perder o direito de usufruir dos seus bens, aqueles bens que obteve licitamente e com muito esforço. É perigoso possuir um aparelho de telefone móvel; é perigoso possuir um automóvel. Todas aquelas pequenas coisas que nos dão satisfação e nos enchem de orgulho por serem fruto de trabalho honesto e persistente nos colocam em risco. Tudo aquilo que nos faz sentir dignos do nosso próprio trabalho é perigoso.

Em suma, é muito caro e degradante conviver com a criminalidade.

 

 

 

 

 

Quem está seguro em São Paulo? De repente o seu cartão de banco fica preso na máquina de autoatendimento,  uma simpática senhora, branca e bem vestida, oferece o telefone do banco.  Estava ali “por acaso”?  Por que não? ela parece tão inofensiva, tão prestativa, tão…

Você a princípio acha estranho alguém solicitar a sua senha pelo telefone para bloquear o cartão, mas diante do pavor de deixar um problema sem solução e deixar o seu cartão ali, na boca do caixa eletrônico sem conseguir retirá-lo após várias tentativas,  isso causa um pouco de pânico. É domingo, não tem funcionário no banco, não tem guarda, a mente fica um tanto confusa.

Pelo telefone a moça espera e já demonstra impaciência com a sua desconfiança. Ela diz que quer garantir que ninguém terá acesso ao seu cartão a partir de então. Ela parece prestativa e sinceramente preocupada com a segurança da sua conta. Diz que no dia seguinte ou dois dias depois o cartão será devolvido pelo gerente da agência. Segundo ela, como alguém usaria o seu cartão se ele está preso na máquina?

De repente ela pede que você saia da agência para ouvir melhor. Diz que o seu celular está perdendo sinal dentro da agência. Aí começa o golpe. Quando você volta o seu cartão sumiu do caixa eletrônico. Ela diz que a máquina engoliu o seu cartão e que ele será devolvido depois, após o bloqueio.

Aquela  senhora que lhe ofereceu gentilmente o telefone do banco já não está por ali. Não há funcionários no banco. Sem o número do cartão, sem ninguém em quem confiar, você acaba passando os seus dados pelo telefone para garantir o cancelamento, porque vê maior risco em não fazer do que em fazer. Ela vai lhe dar um número de protocolo e um número de bloqueio.

É mais ou menos assim que funciona o golpe do cartão preso no caixa eletrônico, com uma ou outra variante. Alguns minutos depois a sua conta está limpa, e se for possível (e se você não receber pelo menos um SMS para recusar a operação) compras serão feitas pelo cartão de crédito alguns minutos depois.

Pois é, o Brasil está cheio de golpistas. Parece que nunca vai acontecer com agente. Parece que só acontece com os outros.  O que se pode dizer a respeito? Simplesmente evite fortemente usar bancos nos finais de semana quando não há funcionários para lhe socorrer. Não fale com estranhos. Não dê a sua senha nem o código de acesso a ninguém e desconfie de quem lhe solicitar essas coisas por telefone.

Mais ainda, não use seu cartão de crédito em qualquer lugar a menos que você já conheça o dono ou o estabelecimento tenha um boa reputação. Não perca de vista o seu cartão nunca quando entregar ao balconista (o melhor é que você mesmo insira e retire o cartão). Adicionalmente, você pode solicitar ao seu banco para reduzir o limite do cheque especial (alguns são muito “generosos” com esses limites). Se precisar de dinheiro extra tente o crédito pessoal ou consignado.

Por que estou dizendo isso? Porque o meu domingo foi pro saco depois de perder quase dois mil reais com essa brincadeira.  E é nojento saber que eu estive perto de uma golpista de verdade, de carne e osso, não tanto pelo dinheiro, mas porque é asqueroso saber que existe de verdade esse tipo de gente.  E é ainda nojento saber (aí eu fui nojento também)  como as boas aparências enganam.

Felizmente o meu limite era baixo (1000 Reais), eu cheguei em casa alguns minutos depois e bloqueei a senha pelo telefone do banco. Os criminosos tentaram várias vezes fazer compras no valor de 3900 Reais, mas fui avisado e sustei a tempo. Mas ainda não me perdoei pelo erro cometido, que espero ser a primeira e última vez que aconteça.

 

 

 

 

 

Depois de ouvir muitas frases parecidas com “Olha o que estão escondendo de você”,  fico pensando se um dia vão nos avisar que o Brasil já faliu. E foi em minhas caminhadas costumeiras pelas redondezas do Jardim São Paulo (Zona Norte de Sampa) que comecei a me dar conta de quanto o buraco é mais embaixo.

Encontrei um bar com uma placa de “Passa-se o ponto”. Depois outro, e depois mais um. Vez ou outra aparecia ao lado daquela placa uma outra de “Aluga-se”.  E o que me deixou mais admirado é que esses bares funcionavam em aparente normalidade há apenas duas ou três semanas atrás. Não eram novatos no negócio. Muitos deles estavam ali há pelo menos 5 anos.

Logo saindo to Tucuruvi achei um cartaz pregado na parede, informado a chegada do planeta Hercólubus.  “Nasa oculta a verdadeira trajetória do planeta Hercólubos/Planeta-X/Nibiru/Planeta 9”.  Está na Bíblia, segundo os autores. É o Apocalipse. Trump seria, segundo outros, a Besta que arrastaria as multidões.  Os EUA seria a grande prostituta a que a Bíblia faz referência. É o sinal do fim dos tempos.

Não liguei muito pro cartaz catastrofista. Mas quando ouvi notícias de agricultores destruindo tomates enquanto em outros lugares do planeta as crianças sofrem de fome crônica, decididamente  olhei pro céu, e apesar do barulho infernal do trânsito e da poluição do meio-dia, fiquei imaginando se não seria também possível uma conspiração para salvar a humanidade. E, é claro, não tenho a menor intenção de morar em Marte.

Quando criança, aqui em São Paulo, o meu passatempo predileto era ler gibis do Mickey e do Pato Donald.  Quando acumulava muitos, ia ao sebo de gibis na rua Martim Francisco,  quase na esquina com a rua das Palmeiras, e trocava  dois gibis velhos por um outro usado. Almanaques valiam três. Aquele pequeno escambo de revistas em quadrinhos era um negócio de sucesso.

Um dia achei uma história muito interessante. O Tio Patinhas, Donald e os três sobrinhos ficaram presos em uma ilha isolada e deserta.  Não havia comida nem água. O Tio Patinhas e o Pato Donald começaram então a procurar água e comida.

O Tio Patinhas achava ouro, diamantes, prata … mas não achava água nem comida. O Pato Donald achou um coco. Mas o coco não dava pra matar a sede nem alimentar  todo mundo. Se dividisse com o tio Patinhas, todos morreriam de fome e de sede.

O Tio Patinhas então ofereceu ouro e diamantes ao Pato Donald em troca do coco. Mas o Pato Donald pensou bem, e não viu vantagem nenhuma em ter ouro e diamantes e morrer de fome e sede.  Não se come ouro ou diamante. Também ouro não é varinha mágica que traz comida, abrigo e roupa do nada. Se houvesse pelo menos um agricultor ali, se houvessem operários trabalhando, se houvesse comércio pra comprar coisas com ouro e diamante, aí sim, ele aceitaria a oferta do velho Tio Patinhas.

A história, como sempre,  acabou bem. Eles escaparam da ilha e se salvaram. Mas deixou em mim a certeza de que dinheiro, sem trabalho, é uma ficção sem trama. Todo o dinheiro do mundo, se isolado em uma ilha, não vale nada. Precisa de trabalho.

E é engraçado como nós, trabalhadores da cidade e do campo, pensamos no dinheiro como algo distante e difícil de conquistar, quando na verdade somos nós que fazemos o dinheiro valer alguma coisa além dos valores impressos nas notas. Aqueles valores são o resultado da nossa labuta diária.

 

 

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A roupa nova do Rei

Tem também aquela lenda  do Rei (ou imperador)  vaidoso, inspirada em um conto medieval, que gostava de trocar de roupa várias vezes por dia. Ele tinha uma roupa pro café da manhã, outra pro almoço, outra pro chá da tarde e outra pra hora de jantar.

Naquele tempo dois tecelões se apresentaram no palácio como grandes conhecedores na arte da tecelagem, e disseram que faziam roupas tão lindas que quem não visse a beleza das suas roupas só poderia ser muito, mas muito estúpido mesmo.

Os tecelões então pediram fios de ouro puro e começaram a fingir que trabalhavam na roca. Como já estavam demorando muito, o Rei pediu ao primeiro ministro que fosse ver como ia indo o trabalho. Chegando lá, os tecelões paravam de simular que estavam tecendo,erguiam as mãos e fingiam que seguravam o tecido. O ministro não via nada, mas se lembrou de que se não visse nada seria considerado estúpido, muito estúpido mesmo. Voltou ao Rei e disse que os tecelões estavam fazendo um excelente trabalho e o tecido era lindíssimo.

Assim continuou o Rei a enviar pessoas para conferir o trabalho dos tecelões. Todos voltavam admirados com o resultado, mesmo sem enxergar a roupa.  Ora, mas eles não eram estúpidos, e só uma pessoa muito estúpida não enxergaria a beleza daquela obra de arte. Então diziam ao Rei que os tecelões trabalhavam muito bem e com muita arte. O Rei estava muito contente e sempre enviava mais e mais fios de ouro a pedido dos tecelões.

Até que um dia a roupa ficou pronta. O Rei olhou bem, mas não viu a roupa. Esfregou os olhos, mas continuava não enxergando a roupa. Como não queria ser considerado um Rei muito estúpido, perguntou aos ministros o que achavam. Os ministros, como também não eram estúpidos, acharam que a roupa estava à altura da realeza, da sabedoria e da coragem do Rei. Os tecelões vestiram o Rei. “Tão leve que eu nem sinto ela sobre a minha pele!”, disse ele, emocionado. O Rei então pagou regiamente aos dois tecelões, e os despediu com todas as honras.

Os tecelões malandros, por sua vez, partiram rapidamente levando todo o ouro em grandes sacos.

O Rei então saiu pelas ruas com a sua comitiva, para exibir a sua nova roupa ao povo. Todos levantavam bandeiras e gritavam: “Vida longa ao nosso Rei!”.

Com medo de parecer estúpido, todo mundo se esforçava para acreditar que a roupa do Rei era muito elegante enquanto ele desfilava garbosamente pelas ruas.

Até que um garoto não se sabe de onde, que nada sabia de estupidez nem de bom gosto, denunciou a nudez do Rei apontando para ele e dizendo: “Vejam só que engraçado, o Rei está nu!”.  O povo abriu os olhos como quem acorda de um transe, e de repente caiu na gargalhada. O Rei, é claro,  ficou muito envergonhado.

E se a história não foi bem assim, bem que poderia tecido.